Ria Formosa – Sons e sabores das marés

Fadista de renome internacional, Mafalda Arnauth não conhecia bem a Ria Formosa, uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. A cantora Viviane, que vive na região, serviu-lhe de guia neste passeio algarvio com contornos ambientalistas por paisagens magníficas e gastronomia deliciosa.

Amigas desde que participaram no projecto Rua da Saudade, de homenagem ao poeta José Carlos Ary dos Santos (que além de um disco rendeu uma tournée), Mafalda e Viviane reencontraram-se no Real Marina Hotel & SPA, em Olhão. Hoje conhecida como “capital da Ria Formosa”, a antiga vila piscatória cresceu bastante nas últimas décadas, mantendo vivas tradições ligadas às lides marítimas. A cidade orgulha-se da sua riqueza histórica e patrimonial, mas aposta num progresso equilibrado na indústria e no comércio, além da dinamização das áreas de cultura, desporto e lazer.

Vinda do spa, relaxada após uma massagem exclusiva, Mafalda abraça Viviane carinhosamente: “Já tinha saudades!”. Jantamos no restaurante do Real. “Só nos apetece falar de férias” – afirma Viviane, recomendando a Mafalda uma visita às ilhas barreira da Ria Formosa: Fuzeta/Armona e Culatra/Farol. É nesta última que ela passa férias há 30 anos.

Segundo o músico Tó Viegas, seu companheiro, “é um lugar onde ainda é possível fazer luaus na praia, com fogueira acesa, em noites de lua cheia. Mas o turismo obedece a regras rígidas, por causa das questões de preservação do Parque Natural da Ria Formosa”.

O dia seguinte começa a bordo do catamarã da Natura Algarve, empresa especializada em passeios ecológicos. O proprietário, Ricardo Barradas, serve-nos de skipper e partilha conhecimentos sobre fauna e flora locais. Armadas com binóculos, as cantoras observam as aves: garças, pilritos, rolas do mar, ostraceiros… Viviane identifica facilmente os pássaros, inclusive pelos sons. Já Mafalda queixa-se de “estar a focar sempre o bicho errado”, provocando gargalhadas.

À descoberta da Ria

A Ria Formosa, um dos mais importantes ecossistemas lagunares da Europa, integra cerca de 2500 espécies de seres vivos. Estende-se ao longo de 60 quilómetros por cinco concelhos algarvios. Ricardo explica que a sua geografia “oscila consoante as marés e com areias migrantes levadas pela cadeia de sedimentos”. A vegetação, o sapal, presta-se à criação de bivalves, cujos viveiros são assinalados por estacas.

Ainda assim, a Ria tem das partes mais navegáveis do litoral algarvio. Mafalda olha os barcos com nostalgia. “O meu pai construiu muitos, numa oficina perto de Lisboa. Alguns eram umas autênticas casquinhas de noz, barquinhos de pescador. Lamento não ter ficado com nenhum.” Ricardo aproveita para mencionar o Caíque Bom-Sucesso, ex-libris olhanense. Originalmente destinado à pesca do atum, o veleiro (cuja réplica está ancorada no porto de recreio da cidade) partiu em 1808 para o Brasil com 17 tripulantes encarregues de informar o Rei D. João VI sobre o levantamento popular que levou à expulsão das tropas de Napoleão.

Viviane encaminha Mafalda para os mercados municipais: “Venho sempre cá fazer as minhas compras”. Faz notar que os edifícios avermelhados, junto ao cais, datados de 1916 e recuperados em 1998, foram decorados com azulejos assinados pelo pintor Costa Pinheiro.

Saudada pelas vendedoras, Viviane informa a amiga sobre o valor nutritivo dos peixes da região, que apesar de não terem bom aspecto (o charroco, por exemplo, é horroroso), são muito saborosos. Mafalda fica a conhecer o litão, que para os olhanenses substitui o bacalhau no Natal.

Almoçamos no restaurante À-do-João, no Farol. Viviane não podia deixar de mostrar à amiga a sua ilha favorita. Dividimos a mesa com o vice-presidente da Câmara Municipal de Olhão, António Pina, que conhece a “conterrânea” há anos. Filha de emigrantes, Viviane nasceu em Nice, em França, mas chegou ainda criança ao Algarve. “Vim para Olhão tomar conta da horta onde o meu avô cultivava milho e acabei por fazer ali o meu lar.”

As duas amigas caminham pela praia de areia fina, banhada por águas transparentes. Junto ao farol do Cabo de Santa Maria – construído em 1851 – o oceano parece infindo. Regressamos a terra ao fim da tarde. Mafalda já se prepara para o banquete nocturno no afamado Primo dos Caracóis. Apreciadora de ostras, Mafalda tem agora a oportunidade única de conversar com um criador, que lhe dá dicas preciosas sobre as iguarias.

Fado do regresso

Pela manhã, em casa de Viviane e Tó, visitamos o ZIPMIX, único estúdio de gravação profissional do Sotavento algarvio, que funciona há oito anos. Cá fora, a cadela Zuvi rebola na relva. Com cinco anos, é uma perfeita representante dos cães d’água portugueses, raça apurada num canil da região, do qual Viviane é madrinha.

Em frente ao Jardim do Pescador Olhanense, no restaurante O Horta, provamos o famoso xarém com conquilhas, único prato algarvio finalista no concurso 7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa. Segue-se uma tarde didáctica. No Museu Municipal, perto da Igreja Matriz, as visitantes são recebidas pelo presidente da Câmara, Francisco Leal, que lhes serve de guia na exposição “Os Compromissos Marítimos no Algarve”.

Seguimos para a Ecoteca de Olhão, vocacionada para a educação ambiental, situada no Chalé João Lúcio (poeta que, em 1916, construiu um admirável edifício simbolista). “Uma casa mística, que foge à arquitectura algarvia e que só podia ter sido obra de um sonhador”, diz Viviane. Encantada, Mafalda confirma: “Em cada piso, temos uma percepção especial e uma visão diferente da Ria”. É como se a paisagem lagunar se multiplicasse em variantes até ao pôr-do-sol.

Lisboeta com raízes na Beira Alta, Mafalda Arnauth passa as férias de verão no Algarve desde criança. Incentivada pela amiga Viviane, despede-se de Olhão ansiosa por voltar: “Fiquei com vontade de cantar sobre um palco flutuante na Ria Formosa. Já fiz concertos em sítios espectaculares. Mas acho que aqui seria algo mesmo deslumbrante…”.

por Moema Silva

In http://www.upmagazine-tap.com

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